Em virtude da necessidade evidenciada voltada às discussões sobre sucessão rural no Rio Grande do Sul a 20ª Coordenadoria Regional de Educação vem organizando Cursos de Reestruturação Curricular da Educação do Campo para os educadores das escolas do campo da região. O evento ocorreu nos dias 12 e 13 de maio de 2014, entre as dependências da Escola Estadual de Ensino Médio Cardeal Roncalli e a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, campus de Frederico Westphalen.
O Seminário de Abertura foi desenvolvido pelo Coordenador da 32ª Coordenadoria, Prof Ms. Ayrton Cruz, que explanou sobre o Direito de Aprendizagem nas Escolas do Campo e a construção do conhecimento nos ciclos de formação, como uma necessidade de articulação pedagógica voltada as reais necessidades dos sujeitos do campo. Também participou do debate o Prof Dr Julio Alejandro, natural do Chile, que integra a Secretaria Estadual de Educação (SEDUC) explanou sobre a realidade educacional evidenciada, e a importância que esta tem no desenvolvimento integral das pessoas.
O evento proporcionou a participação aos educadores em oficinas, em que foram discutidos e construídos saberes voltados ao “Trabalho como princípio educativo e politecnia na perspectiva da educação do campo”; “Fases do desenvolvimento humano e os ciclos de formação”; “Cuidando de quem educa: o aspecto emocional na vida pessoal e profissional”; “A interdisciplinaridade e os ciclos de formação: construindo os direitos de aprendizagem”; “Gestão escolar: gerenciamento e compartilhamento na perspectiva pedagógica”; “Os direitos de aprendizagem da área da matemática no II e III ciclos de formação”; “Pacto e ciclos: a construção de possibilidades nas escolas do campo”; e “Mais educação e educação do campo: articulações pedagógicas”. Essas oficinas temáticas foram mediadas por educadores que integram a Secretaria Estadual de Educação entre outras parcerias.
A convite da 20ª CRE, a Coordenadora de Desenvolvimento Rural do município de Taquaruçu do Sul Arminda Almeida da Rosa, representando a ARCAFARRS (Associação Regional das Casas Familiares Rurais do RS) e a CFR (Casa Familiar Rural) de Frederico Westphalen, ministrou o Seminário de Encerramento com a proposta da formação de agricultores, experiência da Formação por Alternância desenvolvida pelas CFRs. Na explanação, Arminda evidenciou fatores relevantes na necessidade de construção de reestruturação de um novo currículo para as escolas do campo, uma vez que os agricultores necessitam da principal tecnologia, sendo o conhecimento necessário ao desenvolvimento das atividades agrícolas.
Diante da realidade brasileira, em que ainda se evidencia o êxodo rural e o aumento da periferia nos grande centros, e boa parte deste formado por sujeitos do campo, que têm em si a ilusão da “qualidade de vida” da cidade, esse debate precisa ser estabelecido em redes para a busca de soluções imediatas e a longo prazo. Segundo pesquisas do Censo Agropecuário (IBGE), o grau de instrução dos agricultores do RS é de 81 % com ensino fundamental e apenas 4% com ensino superior, seguido de 3% de analfabetos e apenas 8% no ensino médio. Além disso, o maior êxodo rural é evidenciado por jovens, sendo que as perspectivas para esta década (IBGE, 2010) é que 81 mil jovens emigrarão para as cidades anualmente, refletindo no envelhecimento do meio rural e a extinção das comunidades rurais. Segundo o professor da UFRGS Dr. Sérgio Schneider, “o desenvolvimento rural pressupõe uma agricultura integrada e articulada com múltiplos setores: econômicos, ambientais e sociais” e a articulação em redes para garantir a permanência do jovem no campo e a manutenção da produção de alimentos em bases familiares.
Ao final do evento, a presença importante do jovem agricultor, egresso da CFR de FW, Mateus Vizzotto, fez a apresentação de seu Projeto Profissional de Vida enfocando alguns aspectos relevantes na propriedade rural: a família, o trabalho e o espírito empreendedor. Fatores estes cruciais para a permanência do jovem no campo e a importância do papel da escola nesse processo.
Aliado a essa ideia Arminda ressalta a importância do desenvolvimento de Projetos Profissionais de Vida junto aos jovens e suas famílias para que possam desenvolver suas propriedades com competência e competividade no mercado consumidor, além de garantir o auto-consumo da família, com isso evidenciando a reprodução social nas comunidades rurais. Ressaltou também que “é necessário uma proposta de ensino/aprendizagem em que o jovem passe de pessoa em formação a autor de sua própria formação”. Conforme menciona Paulo Freire “a escola sozinha não constrói o desenvolvimento rural, no entanto não há como discutir e implementar um projeto de desenvolvimento do campo sem um projeto de educação”.